No começo de outubro, o g1 publicou uma reportagem sobre o ensino de matemática no Brasil. Os números são ruins. No Pisa, de cada 10 alunos de 15 anos, 7 não conseguem fazer contas simples. No 5º ano, só metade aprende o que deveria em matemática.
A reportagem mostra um estudo sobre o que funciona nas escolas que vão bem em matemática. Li com atenção, porque sou professor de matemática da rede estadual do Rio há mais de 17 anos. Concordo com quase tudo que o estudo diz. Mas ele olha para os primeiros anos da escola, e eu recebo esses alunos no ensino médio. E na sala de aula, eu vejo uma coisa que o estudo não mostra.
O que eu defendo aqui
Muitos alunos estão passando de ano sem aprender o básico. E passar de ano não é o mesmo que aprender.
Quando o aluno avança sem o básico, ele não consegue acompanhar a aula. Ele se perde, para de tentar, e logo aparece a indisciplina. Aí não é só ele que perde. A turma inteira perde. Todos perdemos. A sociedade perde.
A escola, sozinha, não resolve isso. Eu não acredito em escola boa sem bons alunos. São os bons alunos que fazem a escola ser boa. E a postura de bom aluno vem de casa, dos valores que o pai e a mãe passam para o filho.
Na matemática, o básico começa pela tabuada. E a maioria dos alunos que chegam a mim ainda não sabe a tabuada de cabeça.
Lá no fim do texto, deixo três coisas que você pode fazer em casa a partir desta semana.
O que funciona, segundo o estudo
O estudo foi feito em sete cidades onde os alunos vão bem em matemática, inclusive os de famílias mais pobres. Ele olhou para as séries do 1º ao 5º ano e listou o que essas escolas fazem.
Algumas coisas que aparecem na lista:
- provas feitas pela própria rede para descobrir onde cada aluno tem dificuldade;
- aulas com rotina, muita prática e revisão;
- um tempo da aula só para treinar conta, até o aluno fazer rápido;
- alunos explicando como chegaram à resposta.
O estudo também faz um alerta que eu assino embaixo: é um erro achar que basta treinar o aluno para a prova.
A tabuada é o alfabeto da matemática
Eu costumo explicar assim: um aluno não escreve um texto sem saber o alfabeto. Na matemática, a tabuada é o alfabeto.
O aluno que não sabe a tabuada até chega no resultado. Ele conta nos dedos ou soma o 7 oito vezes. Só que cada conta cansa tanto que, na maioria das vezes, ele desiste antes de terminar o problema.
Isso tem explicação. O cérebro é feito para economizar energia. Quando uma tarefa exige esforço demais, a tendência natural é largar. O psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel, chama isso de lei do menor esforço, no livro Rápido e Devagar.
O estudo pede um cuidado: não focar só em decorar e em repetir exercício.
Concordo. Decorar a tabuada não substitui o raciocínio. Mas você já viu alguém escrever um texto sem ter o alfabeto na memória? Com a tabuada é igual. Quando ela está na cabeça, o aluno fica livre para pensar no problema. O próprio estudo chama isso de fluência de cálculo, que é fazer conta com rapidez. Uma coisa ajuda a outra.
O aluno que chegou em outubro
Este mês recebi um aluno que foi matriculado no dia 14 de outubro. Ele não estudou o primeiro nem o segundo trimestre.
O mais provável é que ele seja aprovado no fim do ano. E como fica o professor? Como avaliar o ano inteiro desse aluno só pelo último trimestre? E o conteúdo que ficou para trás, quem vai ensinar?
Reprovar exige relatório. Aprovar não exige nada. E o professor está cansado. Não do aluno, mas de um sistema que vai criando formas de aprovar sem que o aluno aprenda de verdade. O aluno sai prejudicado sem perceber. E muitos pais ficam felizes com a aprovação.
Na prática, o sistema faz de conta que o aluno aprendeu. E muita gente dentro da escola acaba entrando nesse faz de conta, não por descaso, mas por cansaço.
Isso não é um caso raro. Acontece com frequência, e com a permissão do próprio sistema.
Em novembro do ano passado, o governo do estado do Rio publicou um decreto sobre isso. Pela regra, o aluno do 1º e do 2º ano do ensino médio pode passar para a série seguinte mesmo reprovado em até seis matérias. No 3º ano, em até três. Ele leva essas matérias como dependência e faz uma recuperação no ano seguinte.
O governo diz que a medida serve para diminuir o número de alunos que abandonam a escola. Essa preocupação é real. É o que muita gente chama de aprovação automática. Mas um decreto pode aprovar o aluno. Não pode fazer o aluno aprender.
Como a dificuldade vira bola de neve
É assim que a bola de neve começa. Pense num aluno que termina o 5º ano sem saber a tabuada.
No 6º ano, o professor passa uma conta como 56 dividido por 7. Ele não sabe de cabeça que 7 vezes 8 dá 56. Então tenta adivinhar, apaga, tenta de novo. Depois de algumas tentativas, desiste. Mesmo assim, passa de ano.
Nos anos seguintes vêm as frações e as equações, que usam a tabuada o tempo todo. Ele fica ainda mais para trás. E passa de ano de novo.
Quando chega ao ensino médio, ele precisa calcular uma porcentagem e ainda trava numa multiplicação simples.
Ele vai sendo aprovado, e as dificuldades só vão aumentando. O que ele não aprendeu num ano não some. Vai junto com ele para o ano seguinte.
Por que o nível das aulas cai
Esse aluno quase nunca está sozinho na sala. Quando a maioria da turma chega com dificuldades dos anos anteriores, o professor não consegue dar a aula que deveria. Precisa voltar ao que ficou para trás, e o conteúdo da série fica pela metade. É assim que o nível das aulas vai caindo.
E esse problema quase não aparece nas notas da própria escola. A pressão para aprovar é grande, e a prova interna acaba se ajustando ao que a turma consegue fazer.
É que hoje a educação é medida pela contagem: quantos alunos foram aprovados, quantos não abandonaram a escola.
Quanto eles aprenderam fica de fora dessa conta. O foco deixou de ser o aprendizado.
O problema só aparece nas avaliações de fora, como o Saeb e o Pisa. Por isso o resultado do Pisa, lá no começo deste texto, é tão ruim.
O que começa em casa
Muita gente culpa o celular. No ensino médio, onde eu dou aula, não acho que esse seja o maior problema. O maior problema é que a maioria dos alunos não sabe o que foi buscar na sala de aula. Vai só para passar de série. E, para passar de série, hoje basta muito pouco. Então, na maior parte do tempo, fica livre para se distrair, com o celular ou com qualquer outra coisa. No longo prazo, isso não leva a lugar nenhum.
Saber o que buscar na escola é algo que começa em casa. E começa quando o pai enxerga a educação como um grande investimento. Talvez o maior de todos.
Só que muitos pais acham que já fazem a parte deles quando garantem que o filho vá para a escola. Dizem que o foco agora é dar ao filho a oportunidade que eles não tiveram.
Na escola pública, isso é ainda mais comum. Os pais não veem a mensalidade saindo do bolso, porque ela fica escondida nos impostos que todos nós pagamos.
Pense num pai que diz: "Quero que meu filho tenha uma vida melhor que a minha." É um desejo bonito. Agora pergunte a ele: melhor como? O que o filho precisa aprender este ano para chegar lá? E o que você mesmo está aprendendo para mostrar esse caminho? Quase sempre a conversa para aí.
A maioria de nós nunca aprendeu a fazer um plano para a própria vida, e muito menos para a vida do filho. Eu mesmo passei mais de 30 anos sem pensar nisso com clareza.
O pai que não conhece o caminho tem dificuldade de mostrar o caminho ao filho. Ele não precisa ter chegado lá, mas precisa continuar andando. O problema é que muitos param de aprender e colocam toda a esperança no filho.
O combinado com a minha filha
Aqui em casa, o meu combinado com a minha filha é não focar na nota, e sim no aprendizado.
Ela já entendeu que precisa aproveitar o tempo na escola para aprender o básico: ler bem, se comunicar bem, fazer conta de cabeça, raciocinar com lógica e pensar por conta própria. Isso inclui perceber se um conteúdo vai ser útil na vida dela ou não.
3 coisas para fazer a partir desta semana
1. Descubra onde o seu filho está. São dez minutos, sem prova e sem briga.
- Leitura: peça que ele leia em voz alta um trecho curto de uma notícia e conte, com as palavras dele, o que leu.
- Tabuada: peça umas cinco contas fora de ordem, sem papel, como 6 × 9, 4 × 7 e 8 × 3.
- Conta do dia a dia: quanto é o troco de R$ 50 numa compra de R$ 32?
- Raciocínio: pergunte como ele chegou na resposta.
Um erro aqui e ali é normal. O sinal de alerta é quando ele lê, mas não consegue contar o que leu, ou quando precisa contar nos dedos na maioria das contas. E o jeito que ele pensa mostra mais do que o acerto.
Se aparecer uma dificuldade, não é motivo de bronca. É só o ponto de onde vocês vão começar. Dez minutos todo dia valem mais do que duas horas na véspera da prova. Se a dificuldade for a tabuada, contei no texto Meu filho não quer estudar, o que fazer? como foi quando a minha filha aprendeu.
2. Troque a pergunta da nota. Em vez de "quanto você tirou?", pergunte:
- O que você aprendeu essa semana?
- Isso serve para quê na sua vida?
- Teve alguma coisa que você não entendeu?
A nota mostra como foi a prova. Essas perguntas mostram o que ficou com ele.
3. Escolha uma coisa para você aprender. Algo pequeno, com começo e fim: anotar os gastos da casa durante um mês, terminar um livro, aprender a calcular os juros de uma compra parcelada. E o seu filho vai ver isso acontecer dentro de casa.
- Passar de ano não é o mesmo que aprender. O aluno que avança sem o básico se perde, para de tentar, e a turma inteira perde junto.
- O sistema conta quantos alunos passam, e não quanto eles aprendem. No Rio, um decreto deixa o aluno do ensino médio passar de ano reprovado em até seis matérias.
- Na matemática, o básico começa pela tabuada. Ela é o alfabeto: quem sabe de cabeça fica livre para pensar no problema.
- A postura de bom aluno vem de casa. Quando o pai pergunta o que o filho aprendeu, e não só a nota que tirou, o filho entende o que foi buscar na escola.
- O pai não precisa ter chegado lá, mas precisa continuar aprendendo. E dez minutos bastam para descobrir onde o seu filho está.
Se este texto fez sentido para você, é sobre isso que eu falo no meu Instagram: o pai que não deixa a formação do filho só nas mãos da escola.