Você manda ele estudar e ele diz que já vai. Meia hora depois você passa pelo quarto e ele está no celular. Você manda de novo, ele senta na frente do caderno, e você fica com a impressão de que ele só está esperando o tempo passar. No fim do dia sobra a pergunta que trouxe você até aqui: o que eu faço para meu filho estudar?
Quando ele não quer estudar de jeito nenhum, ou já não quer mais, a vontade é partir para castigo, prêmio ou aplicativo. Antes disso, vale fazer outra pergunta: ele não quer estudar, ou não sabe como se estuda? Pelo que vejo em mais de 17 anos de sala de aula, na maioria das vezes é a segunda. E cada uma pede uma resposta diferente.
Por que o seu filho não quer estudar
O aluno que não abre o caderno em casa quase sempre não tem uma rotina de estudos. E, sem rotina, muitas vezes ele nem sabe o que fazer depois de abrir o caderno. Estudar é ler o capítulo de novo? Copiar a matéria? Fazer exercício? Qual exercício? Como ele sabe que terminou?
Os que tentam estudar, na maioria, estudam na véspera da prova. Às vezes até funciona para a nota. Só que o que foi decorado na noite anterior some rápido, e na prova seguinte ele começa de novo do zero. Para ele, estudar é isso: um esforço para tirar nota. Não passa pela cabeça dele que aquilo pode ter valor para a própria vida, porque ninguém mostrou isso a ele.
Quando a gente diz "vai estudar", está avisando que é hora, mas não está dizendo o que fazer com essa hora. Para quem nunca aprendeu, a frase é tão vaga quanto mandar alguém "ir resolver aquilo" sem dizer o que é. Ele senta, folheia o caderno e levanta convencido de que estudar é chato e não serve para nada.
Os 15 anos em que eu estudei sem saber estudar
Falo isso porque fui esse aluno. Não aprendi em casa como se estuda, e por uns 15 anos achei que estudar era decorar a matéria para passar na prova. Não tinha rotina nem estratégia. Como ia bem em matemática sem muito esforço, achava que isso bastava. Só descobri que não tinha estrutura nenhuma já adulto, no primeiro semestre de um curso de computação. Fui inscrito em seis matérias e reprovei em cinco. No semestre seguinte, reprovei em mais uma e tranquei o curso por dois anos. Voltei porque um amigo me incentivou. Dessa vez estudei de verdade: criei uma rotina, organizei o material e entendi que precisava dedicar mais tempo ao estudo. Levei cinco anos para terminar um curso de três. Mas terminei.
Ninguém ensina o que não aprendeu. Comigo foi assim, e talvez com você também.
Como fazer o seu filho estudar
Quando o filho não estuda, o caminho natural é aumentar a cobrança. Uma bronca vira três, aparece a comparação com o irmão, com um amigo da escola, com o filho de algum conhecido, e vem a ameaça de tirar o celular. Às vezes funciona por uma semana, e o caderno abre. Só que o problema de antes continua lá, porque ele ainda não sabe o que fazer com o caderno aberto. E estudar vai ficando com cara de briga.
Cobrar mais não é a mesma coisa que dar direção. Dar direção é trocar o "vai estudar" por perguntas que ele consiga responder:
- O que você precisa aprender?
- Para que isso serve na sua vida?
- Como você vai saber que aprendeu de verdade?
Vou contar um exemplo aqui de casa. Minha filha está no quinto ano e, até pouco tempo atrás, não sabia a tabuada de cabeça. Como professor de matemática, eu sabia que sem a tabuada ela ia começar a ter dificuldade no sexto ano. Assim como a gente precisa saber o alfabeto para escrever, precisa saber a tabuada de cabeça para fazer conta. Mas eu não quis forçar, porque a decisão de aprender tinha que ser dela. Mostrei a ela por que a tabuada importava, e ela entendeu a necessidade do aprendizado.
Só que "aprende a tabuada" é tão vago quanto "vai estudar". Então eu pedi para ela aprender uma coisa só: a tabuada do dois. Aí ela sabia o que tinha que aprender e como ia saber que aprendeu. Depois fomos para as outras. Hoje ela sabe praticamente tudo de cabeça, e é ela quem me pede para tomar a tabuada.
Fazer essas perguntas é guiar. E para guiar, você precisa conhecer o caminho. Não precisa ser professor, mas precisa saber responder essas mesmas perguntas sobre a sua própria vida.
O que você está aprendendo hoje
Aqui a conversa vira para você, e não é para acusar ninguém. Não estou falando de estudar para escola. Estou falando de qualquer coisa que você decidiu aprender para melhorar de vida. Você sabia o que precisava aprender, como ia aprender e como ia saber que tinha aprendido?
Em sala, eu costumo perguntar aos meus alunos se os pais deles têm uma rotina de estudo na própria vida. Quase todos dizem que não.
Se a resposta também não veio fácil para você, não se culpe por isso. É bem possível que ninguém tenha ensinado isso a você também. É esse o pai que eu chamo de pai no automático. Ele ama o filho, trabalha muito e cobra porque se importa. Só que cobra uma coisa que ele mesmo não sabe fazer. E quem não tem clareza do caminho consegue mandar, mas não consegue guiar.
O filho repara nisso. Numa casa onde só ele estuda, estudar parece obrigação de quem ainda não tem escolha.
Por que a direção começa em casa
A escola ensina conteúdo. Direção vem de casa, e ninguém mostra um caminho que não está percorrendo.
Pense num pai que senta para ajudar o filho no dever de casa e vê que ele não sabe somar fração. Vai explicar e percebe que também não sabe. Podia mandar o filho tirar a dúvida com a professora no dia seguinte. Em vez disso, naquela noite, depois que o filho dorme, ele procura um vídeo e tenta fazer as contas no caderno. Erra as primeiras, entende por que errou e tenta de novo, até acertar três seguidas sem olhar a resposta. No dia seguinte, ele senta com o filho e não fala "vai estudar". Fala: "Eu também não sabia. Aprendi ontem. Vamos fazer juntos?"
Quando o pai volta a aprender alguma coisa de verdade, sabendo o que quer aprender e por quê, ele passa a saber do que está falando quando o assunto é estudo. Isso não resolve sozinho o que o filho vai fazer amanhã na escola. Mas muda o que ele vê todo dia em casa, e é daí que ele tira a ideia do que é estudar.
- Muitas vezes o filho não estuda porque não tem rotina de estudos nem sabe o que fazer quando senta na frente do caderno.
- "Vai estudar" é uma ordem. Dar direção é ajudar o filho a saber o que precisa aprender, para que isso serve e como vai saber que aprendeu.
- Cobrar mais pode fazer o caderno abrir, mas não ensina ninguém a estudar.
- Para guiar o filho, o pai precisa ter clareza de como ele mesmo aprende alguma coisa.
Se você se reconheceu em alguma parte deste texto, é sobre isso que eu falo no meu Instagram. Um dos seis pilares do Pai MOVIDO é a Disciplina, e ela parte de uma ideia simples: o pai demonstra antes de cobrar. Não é sobre fazer o filho estudar. É sobre você voltar a aprender alguma coisa de verdade, e o seu filho ver isso acontecer dentro de casa.